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Se mentir o nariz cresce!

Essa frase ressoa como um imperativo para as crianças e remete, imediatamente, ao famoso boneco Pinocchio, personagem do criador italiano Carlo Collodi, do livro As aventuras de Pinóquio, cuja primeira aparição se deu em 1883. O boneco faz parte do imaginário de todos nós, e, não por acaso, corporifica aquele que mente, algo nele se mostra ainda que a sua revelia. Isso porque, ao mentir, o seu nariz cresce, e o trai, na compulsão de suas inúmeras trapaças, sendo que, quanto mais tenta remendá-las, mais e mais, o seu nariz cresce, revelando uma pulsão para além do seu controle. Existe algo mais humano do que o mentir? Pinóquio nasce como cria de um ser falante, e não é, de saída, uma madeira qualquer, foi feito sob as mãos de um entalhador, o vovô Geppetto, que escuta, na sua pequena cabana, no interior de uma aldeia Italiana, um gemido, num pedaço de madeira.

Surpreendente é se deparar com esse personagem na história ilustrada de Pinóquio: o livro das pequenas verdades. É que seu autor, Alexandre Rampazo, desconstrói, a partir de um dito quase irrefutável, quando nomeia, no título da obra, “as verdades” de Pinóquio . Quer dizer, então, que a mentira pode portar uma verdade? Precisei de décadas, e, talvez, eu e o autor tenhamos a mesma idade (preciso checar!), para que eu me deparasse com a verdade que Pinóquio revela. Será que Alexandre, quando criança, e tendo escutado essa história, soube, instantaneamente, que se tratava de uma verdade? Neste caso, que verdade, ou, como o próprio autor nomeia, quais pequenas verdades são essas? Esse Pinóquio, talvez, seja o de todas as crianças que, um dia, o descobriram em segredo. Sim, importa saber que as crianças guardam segredos, que não podem ou não devem ser revelados, pois, assim, retiraria o véu, escancarando o avesso do adulto, ou seja, o seu próprio recalque, tão meticulosamente edificado. Esse feito é necessário, a verdade que irrompe do Real, ninguém a suportaria sem um tanto de fabulação.

O Pinóquio de Rampazo é dançante. Na capa ele já se apresenta em movimento quase flexível, como se ensaiasse o momento do seu nascimento, como se estivesse “acordando”, e se espreguiçando, ao estender os braços. O autor parece nos convidar a testemunhar o nascimento de Pinóquio. Um boneco de madeira dançante? Ah! Esse Pinóquio! Está só, na capa do livro, assim como todos nós, que, ao vir ao mundo, estamos “sozinhos”. Nascer é quase um rito de passagem do que se materializa na condição de sermos humanos, nascer é estarmos sós, nus, em pelo. Se não fosse o amparo das mãos de um acalanto (ou não), nas primeiras sonatas maternas, poderíamos todos sermos apenas um “pedaço de madeira”, nada mais que isso.

O bebê humano é o ser, dentre os animais, que mais demora a adquirir independência nos seus primeiros cuidados. Já, na saída do ventre, ele se encontra desamparado, morreria, se fosse deixado por conta própria. Nossa vulnerabilidade é condição de nascença. E o que dirá desse começo de sermos mamíferos? Sem o alimento do seio materno, ou algo parecido, como a mamadeira, morreríamos de fome. Mas a fome não cessa no estômago, ela extrapola o corpo e quer mais, sempre, e não para de querer, a não ser com a morte (existe morte em vida).

O Pinóquio, que carrega pequenas verdades, nos mostra o nascimento de um ser, do trabalho alongado na formação do Eu, ou, se preferirmos, do nascimento do sujeito: o falante humano. Quando ele se olha no espelho, vê apenas um boneco de madeira. Pinóquio nada mais é do que o reflexo invertido da imagem que volta do espelho. É curioso se deparar com a última frase, escrita de forma invertida, no final do livro “laer es-ranroT” (Tornar-se real). É, na inversão, daquilo que retorna do outro, numa metáfora do espelho (como propõe Lacan), que o pequeno candidato a ser humano pode vir a Tornar-se um Sujeito.

Esse boneco das pequenas verdades nasceu em 2019, pelo menos, para mim, que vem de uma geração que cresceu ouvindo as suas intrigantes histórias e peripécias de sobrevivência. Como ele era “custoso”, fazia travessuras como toda criança faz, e “mentia” como toda criança também faz! Num jogo simbólico do brincar de pique-esconde, ele guarda os seus segredos. No entanto, o seu nariz o anuncia. O menino boneco tenta esconder as suas verdades numa tentativa de velá-las, afinal, a realidade, muitas vezes, pode ser brutal para as mentes pequeninas, mas seu nariz o desconcerta, o desmente, faz mancar e transparece, num processo sintomático, o tamanho das suas “inervações”. Aliás, é disso que se trata a obra de Rampazo, pérola da Pérola, a de sua pequena, e, por isso, grande verdade, aquela que habita em todos nós, as mentiras de Pinóquio só surgem porque ele está referido a um outro da linguagem, do desejo, das identificações.

No livro das pequenas verdades de Pinóquio, ele começa pela própria imagem no espelho, mas ela sozinha não tem nada a dizer de si, a respeito de quem ele é, ou quem ele gostaria de ser, ou mesmo, das possibilidades, a partir daquele Outro que se oferece a ele. Pinóquio, diante do espelho, “era apenas um boneco de madeira.” Para nascer como criança, precisava pegar empréstimos de  alguns traços de personalidade, desejos, daqueles que, pelo seu caminho, ele encontrava. Esses encontros se dão sempre com o espelho, a imagem que vem do outro, de forma revirada, porque espelhada. Pinóquio sonha, acordado ou dormindo. Seu processo passa pelo crescimento do seu nariz, que deu brotos, frutos, folhas e frescor, para, logo, em seguida, por meio de uma metamorfose, tornar-se real.

Alexandre Rampazo recolhe a verdade dessa bela ficção, desse ser de madeira chamado Pinóquio, e nos faz ver como é possível um boneco de madeira tornar-se uma “criança de verdade,” de “carne e osso”, boneco dançante, nos passos desencontrados, tortos e dobrados que é esse outro encontro, com outros, que nos dão como oferendas pedaços de si. E dessas “pequenas verdades,” descobrimos aquela que as crianças já nos revelam desde pequeninas, a de que os seres inanimados podem ter “vida”, sussurros na calada da noite, na beira da cama, fazendo com que os pequenos corram para o quarto dos pais em busca de proteção, pois os brinquedos, bichinhos, imaginários ou não, adquirem vida, ao chegar a noite, saem de dentro dos livros de história, ou debaixo de suas caminhas frágeis.

Brincadeiras com uma pitada da verdade: nascemos de uma projeção posta ao avesso, no espelhamento que fazemos desse Outro, compondo e tecendo identificações, para tornarmos sujeitos próprios, na melhor das hipóteses. Porém, o preço a pagar para nos tornamos ser de verdade é a do Real que irrompe na constatação angustiante da separação do outro. Tornar-se sujeito implica um nascimento prolongado e doloroso de separação. Processo esse que só se realiza por inteiro com a morte.

Alexandre Rampazo consegue ser delicado e sensível, ele nos diz que, apesar de esse tornar-se gente, a partir do outro, esse processo não precisa ser abrupto, pode se dar numa dança, sempre com e, na companhia do outro, porque, ao final de tudo, mesmo, num ideal de autonomia, somos, constitutivamente, com e para o outro também. Sim, podemos manter essa dança, os passos, no jogo do laço afetivo, que faz laço social, não somos feitos para vivermos isolados. Aquilo que nos falta é da ordem do desejo, o mesmo que nos faz querer ser. Rampazo me fez gostar ainda mais de Pinóquio, que, com suas mentiras, nos revela pequenas e grandes verdades. O inventor da Psicanálise já afirmou e não deixou de provocar estranheza, em um de seus escritos, que as crianças não mentem. Freud foi leitor de Pinóquio?

Denise Fleury, psicanalista e escritora, apaixonada por literatura infantil desde pequena, aprendeu a falar com a sua mãe, herdou cacoetes da vovó, e a ler e ouvir histórias com seu pai nos tempos dos clássicos discos de vinil.

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